quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Do Blog

Alerto aos leitores fantasmas deste blog que o blog tem alto teor de ficção.

De Mim.

Falam mal da barriga da Britney, e daí! Ah, lá em casa. Ia ter cama quente, roupa lavada, comida e internet. Quer vida melhor? Acho que ela já tem tudo isso, mas não têm a mim. O que é um pneuzinho, uma gordurinha se visto debaixo da pele meu pneu remoldado, nada. E mais, coloco meu good year todo dia pra rodar alguns Kms em pratos não muito saudáveis.
Eu sempre fui muito ciente de mim, que não sou o mais bonito, interessante, rico, simpático e legal. Por isso mesmo que digo: Eu namoraria comigo mesmo. Me conheço como não conheço ninguém. Se tem gente que diz não se conhecer, quanto mais eu vou conhecer esse povo. É assim: sei de mim. Sexo? Hum… isso existe? Se eu amo somente a mim, faço amor com que eu mais amo, eu mesmo. Me masturbaria, se não fosse genocídio. Volte e meia eu acordo de um sonho erótico precisando de um banho, durmo com um travesseiro na cabeça e outro entre as pernas. Mas só, não me toco a toa, me gastar pra que?
É… num dia que eu fui comer - botar o pneu pra rodar - vi uma moça que poderia me fazer sair de mim, porque eu sempre fui muito eu. Se é clichê, ou não, descrever uma pessoa desde aquele fio de cabelo arrepiado até o caca de cachorro que está embaixo do sapato, eu não sei, e não está em mim querer saber. Ela tinha um cabelo lindo, preso por um arquinho e um misto de liso com cacheado. Parecia que ela não ia em salões de beleza, mas sim ia cuidar do cabelo em algum grupo escoteiro, pois quando ela passava a mão pelo cabelo ficava brigando com os nós que a falta de condicionador causam. As sobrancelhas eram bem feitas, mas o desenho não combinava muito com o rosto dela, que por sinal era lindo. Eram tão poucos os pelos da sobrancelha que quando idosa ela teria de pintar com lápis de olho, como fazem muitas senhoras. Os olhos, castanhos muito escuros, cor de mogno. O pretinho do olho se perdia no meio daquela cor de breu. Ah! Não posso prosseguir sem antes falar do perfume dela. Ela não usava. E o desodorante, neutro. Gosto do cheiro natural, cheiro de humana, sem artifícios ou conservantes. Continuando… o nariz, só tenho a dizer que não era feio. Pois de que adianta um nariz bonito no meio de uma fuça feia? Mas a boca, sim, a boca! Só me imaginei possuidor daquela boca. Normal e sem batom, simétrica, perfeita. Poderia também ser possuído pela boca, e só ela, se só tivesse ela já não me interessaria o cabelo, olho, nariz e futura sobrancelha pintada. O pescoço, digno de se deixar marcas na pele clara. Vou escantear os braços, que são finos e terminam em mãos perfeitas. Escanteados os braços porque não tirei o meu olho direito dos seios dela, o outro olho é que observou todo resto. Eram tão voluptuosos, vontade de morrer afogado lá dentro, a melhor morte que um homem pode ter sem dúvida é essa. Ela tem aquelas saboneteiras logo acima do colo, eu ia tratar tão bem que só ia colocar sabão chique lá. As costelas inferiores dela são perceptíveis, dependendo da luz do sol tenho certeza que fariam sombra naquela não barriga. Não tinha nenhum pneu, diferente de mim, que já devia ter pneus de chuva e para pista seca. Se eu conseguisse um dia colocar a mão naquela barriga, acabaria pegando nas costas dela, ia dar na mesma. Se o umbigo dela fosse mais fundo, acabaria fazendo um buraco que a transpassaria. Sim, ela estava com uma blusinha de listras horizontais que deixava a barriga de fora, deixava-me com listra vertical. Para o quadril dela eu só tenho um único e indiscutível comentário machista: Ôôôô, mulher boa pra parir. Isso já diz tudo. Afinal um bom quadril é sinal de fertilidade e progesterona. As pernas dela são azul jeans e os sapatos all star. Sem calça e sem sapato também continuaria linda, e minha preferência.
Acho que só esqueci de falar das orelhas e outros detalhes mínimos. Independente do formato dos glóbulos dela, não há nem buraco de brinco. Mulher in natura, sem adornos artifícios.
Bom, até aqui se passaram cinco segundos, se não menos, da minha espiada de olho que lancei. Aí entra a segunda parte da observação; Gestos, condutas e modos.
Com os braços finos que tinha ficava até difícil fazer movimentos bruscos, o que é ótimo. Carregar algo para ela se tornaria de grande valor dentro do íntimo dela, isso, contudo e entretanto ela não seja daquelas feministas mal amadas. Tenho certeza que não, todas as feministas que eu já conheci eram no fundo lésbicas e admirariam essa moça tanto quanto eu, talvez até com mais desejo de conhecer o que há por debaixo da roupa. Ela era delicada demais para ser sapatão, parecia calçar 32. Quando ela foi pedir a comida, desejou bom dia, por mais que depois do meio dia tecnicamente fosse de tarde. Agradeceu o atendente e foi equilibrando a bandeja até a mesa. Ela vinha em minha direção. O mundo voltou no tempo e me senti na era glacial. Deu meia volta e fez uma cara de lerda. Foi buscar os talheres que havia esquecido. Agora vinha de novo - mas de tão esbelta, parecia que nem conseguia me ver de lá de cima. Ela era bem alta, única coisa que pecou, prefiro as baixinhas - são mais fáceis de manusear. Passou reto por mim, ainda deixei o cotovelo meio que fora da mesa, acreditei que poderia tocá-la quando passasse. Mas por sorte dela, azar meu, ela tem um leve rebolado, que justo quando nos meus cálculos deveria se chocar contra meu cotovelo, acabou indo em direção oposta e passou o que pra mim foi muito longe.
Por ser sempre muito eu, pensei que ia já desistir de olhar e observar assim que ela passasse por mim. Não sou do tipo indiscreto que acompanha glúteos com a cabeça, eu acompanho rostos com meu olhar, não atravesso a rua pra fixar o olhar em uma parte específica de uma mulher, que é um todo, não uma nádega. Só meu olho direito que dependendo da moça, peca. Quando achei que ela ia sentar onde estava mais vazio, lá longe do outro lado do restaurante, escuto ela puxando a cadeira na mesa de trás a que estou sentado. Não tive coragem de olhar pra trás, mas ela estava de costas pra mim, menos de um metro. Diacho! Antes tivesse ela sentado em alguma mesa longe, mas de frente pra mim, porque se eu me virar e do nada falar com ela vai ser mais bizarro que se ela estivesse de frente.
Um pedaço de carne, dois - foi-se o bife. Ainda tinha uma lingüiça, salpicão, arroz, feijão e uma sobremesa que me faria engordar mais alguns gramas. Eu ainda não sabia como falar com ela. O garçom olha pra mim e caminha bem rápido até aqui. Outro que passa reto, era ela que havia chamado. Pelo menos deu pra ouvir a voz da moça. Um chá do leãozinho, por favor. Chá do leãozinho? O garçom entendeu na hora, eu não. Só quando ele trouxe o pedido fui entender. Era Mate Leão. Pelo sotaque e por não saber o nome - ela não é de Curitiba. Graças a Deus! Ela não é curitibana por dentro. Ela pode ser além de linda como muitas curitibanas, legal, dedicada e inteligente. Um achado. Me senti não o homem mais sortudo do mundo, porque não ganhei na mega-sena, ainda. Mas me senti muito feliz por haver alguém que é um oásis no monte de areia que são os habitantes dessa cidade. Sou um grão também, mas um grão que se orgulha disso. Não como outros que nem sabem que grão são. Se me dão bom dia, eu não respondo. Afinal o dia nunca está bom em Curitiba, salvo dias em que vou comer chocolate no botânico enquanto observo as pessoas saudáveis correndo e namorando. É, agora só falta eu pular dentro desse oásis. Mas por onde eu poderia começar? Oi moça de fora, você já conhece o:

- Jardim botânico é meu, de ninguém mais, se encontrar algum conhecido lá eu deixaria de freqüentar, vou para ficar me namorando.

- Barigui, longe de tudo e de todos, o último lugar que Deus criou foi o Barigui.

- Praça do Japão… bah, ela não é japonesa.

- Shopping, argh! Pelo amor do prefeito, já tem shopping demais aqui.

- Feirinha do largo ia ter turista demais, ela ia acabar gostando demais de lá e me dando pouca atenção

Mas como assim eu já me vejo indo aos lugares com ela? Se nem sei seu nome. A primeira coisa a fazer seria puxar assunto. Como as pessoas não curitibanas e normais fazem. Ela é tão fina que não come de boca aberta, fazendo barulhos desagradáveis. Um ponto a mais para o casamento. O ruim é que eu não poderia calcular até quando ela ficaria ali comendo os punhados de alface e gramíneas que ela pegou. Ela é uma oportunidade que me pode ser única. Se eu deixar escapar pode ser que eu viva do jeito que estou vivendo pro resto dos meus dias, não que isso seja uma opção ruim, morreria satisfeito. Mas se eu a conhecer posso entregar meu ser pra alguém e viver todos os dias duas vezes, o dia dela e o meu.
Ela nem terminou de comer e se levantou para ir embora, balbuciei com a mão de segura-la, mas não fiz nada.
Sabe aquelas coisas mais impossíveis que faquir gordo e curitibano que nunca andou na XV? Aconteceu, antes dela ir embora, se virou pra mim, olhou para minha testa e deixou um bilhete sobre minha bandeja. Não consegui dizer nada, nem um gemido pra demonstrar o prazer que senti só dela olhar pra mim. Deixou o papelzinho e foi embora, graciosamente, entregando o pagamento do almoço de forma tão contada que até os quebrados quarenta e sete centavos ela tinha em moeda.
Ela saiu pela porta sem olhar pra mim.
Abri o bilhete com uma simples frase e um telefone abaixo. Estava escrito - Não vou passar muito tempo em Curitiba, mais me liga, gostei de você. Primeira regra básica, fundamental e uma cláusula pétrea pra mim, não me relacionar com mulheres que trocam a adversativa - mas - pela aditiva - mais. É absurda minha regra? Não sei e não é de mim querer saber, mas é um critério de avaliação que me livra de mais incômodos. Amassei o papel e joguei no resto de refrigerante em meu copo.
Adolfo Wendpap
Isso é uma obra de fricção e qualquer semelhança com a realidade é mera sacanagem minha.